Manual de Tratamento de Fossas

Associação Comunitária Bosque Residencial do Jambreiro

Manual de manutenção de fossa séptica

Colaboração - Mais Imóveis

Você sabe por que uma fossa transborda?

Como funciona uma fossa séptica

A fossa, ao contrário do que muitos pensam, não é uma forma de esconder, debaixo da terra, o esgoto doméstico. Na verdade, bem feita e bem cuidada, ela é, por muitos, considerada a mais eficiente estação de tratamento de efluentes domésticos que temos. Ela trata o nosso esgoto individualmente, sem permitir a cultura de larvas de moscas e mosquitos e o trânsito, de casa em casa, de parasitas, como ratos, baratas e escorpiões, através de manilhas, galerias e emissários. Há também que se considerar que ela contribui, ainda, com a alimentação do nosso lençol freático, lançando, no subsolo, água tratada e filtrada por processos naturais.

O funcionamento da fossa está baseado num processo, que se utiliza da flora bacteriana que a natureza nos fornece, para degradar as cargas orgânicas domésticas. É de bactérias semelhantes que as concessionárias de água e esgoto se utilizam para tratar os efluentes das nossas cidades. É um processo que começa pela seleção natural de microorganismos que, confinados no sistema de esgoto, conseguem sobreviver porque encontram nele os nutrientes (fezes, urina e restos do processamento de comida) de que precisam para se alimentar. Os que se adaptam, sobrevivem. Os que não se adaptam, morrem. Ao absorver estes nutrientes que as alimentam, as bactérias os transformam em água e gases ficando, no fundo da fossa, uma pequena quantidade de lodo, a maior parte dele, material sólido, não orgânico e não degradável, que corresponde a uma ínfima parcela dos efluentes gerados pela nossa digestão e eliminação de líquidos.

Dependendo da eficiência das bactérias, esta quantidade de lodo pode ser ainda mais reduzida e, como resultado, obtemos água e dióxido de carbono, um gás produzido pela natureza e metabolizado pelas plantas no processo de fotossíntese para produção de oxigênio. Numa região de florestas, como aquela em que vivemos, esta produção de dióxido de carbono é insignificante diante do que a própria natureza produz e depois regenera.

Uma fossa séptica divide-se, normalmente, em um complexo com quatro câmaras em que, a primeira funciona como um decantador que separa o material flutuante do material que submerge. Desta câmara, os efluentes, depois de liquefeitos, seguem para o biodigestor, onde as bactérias dão cabo do material orgânico, digerindo-o. A maior eficiência da fossa séptica depende do tempo que se dá às bactérias para que elas possam degradar a carga orgânica. Portanto, quanto maior for a câmara biodigestora, maior será a eficiência da fossa. Do biodigestor, o efluente caminha para o filtro anaeróbico que, construído de forma a se transformar numa colônia com uma imensa população bacteriana, completa o processo de degradação e filtra os líquidos antes de lançá-los no poço de absorção (poço negro) de onde eles se infiltram no terreno.

As fossas, no entanto, trazem consigo armadilhas. O seu mau uso produz a morte das bactérias, o que traz, como conseqüência, os transbordamentos constantes e a inviabilização do sistema. Uma fossa que transborda após um par de anos de uso, é, normalmente, uma fossa com problemas de manutenção ou dimensionamento. O caminhão trata-fossa não tem por finalidade resolver o problema. A sua função é emergencial e, se as causas não forem sanadas com uma limpeza total, uma nova cultura de higiene doméstica e a inoculação de novas bactérias, a fossa continuará transbordando com freqüência cada vez maior, até que se construa uma nova. Sem uma mudança radical no processo, o ciclo seguirá se repetindo, com transbordamentos constantes, até o fim dos nossos dias. 

Uma solução definitiva do problema vem acompanhada de uma radical mudança de hábitos. O uso constante de desinfetantes contendo bactericidas é o maior inimigo do seu bom funcionamento. A cada descarga de cloro e desinfetantes do tipo “Pinho Sol”, elimina-se, temporariamente, a vida dos “degradadores” existentes nos efluentes. Se as descargas forem constantes destrói-se, permanentemente, o ecossistema bacteriano, inibindo, assim, qualquer possibilidade de um processo de degradação orgânica. Uma medida importante, neste caso, é a redução quase total do uso destes produtos na higienização da casa.

Nos últimos anos, muito se tem pesquisado e enorme sucesso se tem alcançado na utilização de bactérias para a solução de problemas causados pela poluição das águas, inclusive, em áreas atingidas por catástrofes ecológicas. Afinal, não só o esgoto doméstico nos expõe à poluição. Temos resíduos industriais que contaminam grandes áreas com o derramamento de óleo e outros produtos tóxicos em terra, nos rios, nas costa e em alto mar. O ser humano tem problemas de reciclagem que vão desde aqueles causados por imensos complexos industriais até aqueles do cotidiano da nossa higiene pessoal. Estes problemas abrangem desde as situações relativamente simples das nossas casas até as mais complexas como é o caso vivido por astronautas. Imagine o funcionamento de um esgoto espacial em estações em que um indivíduo permanece no espaço por meses, sem receber uma só gota de água nova no seu sistema de abastecimento.

A bio-remediação

Existem vários exemplos do uso de bactérias utilizadas com a finalidade de eliminar a contaminação proveniente dos efluentes domésticos e industriais. A necessidade de minimizar os impactos da ação do homem sobre a natureza e a busca por técnicas capazes de harmonizar o desenvolvimento tecnológico e a preservação do meio ambiente, muito têm contribuído com o avanço da microbiologia nos últimos anos. Em todo o mundo, cientistas vêem dando cada vez mais importância ao domínio do conhecimento e ao controle dos processos de seleção de bactérias para a degradação de cargas orgânicas originadas no esgoto. Seguindo os seus passos, uma série de cientistas e empresas viram, na recuperação ambiental, um filão de futuro e começaram a desenvolver, a nível industrial, a seleção, reprodução e venda de bactérias capazes, tanto de tratar efluentes domésticos e industriais, como reduzir os efeitos de catástrofes ecológicas. 

A ciência que trata dos processos corretivos que, através do uso de bactérias, reduzem a poluição a níveis capazes de serem absorvidos sem riscos pela natureza, chama-se bio-remediação e os seus conhecimentos são usados tanto no tratamento de elementos naturais contaminados com dejetos humanos como em áreas devastadas por derramamento de óleo ou produtos orgânicos tão perigosos como o BHC.

Em 1980, por exemplo, o petroleiro Exxon Valdez, despejou 11 milhões de galões de óleo no atlântico norte, nas costas do Alasca, em Prince Willian Sound. À época, julgou-se que o ecossistema local não seria capaz de absorver o impacto do acidente e a recuperação da flora e da fauna marinha demoraria decênios naquela região. Julgava-se que muitas espécies não sobreviveriam. Para a surpresa de todos, deu-se um fenômeno que muito veio a ajudar nas pesquisas e nas iniciativas futuras para a recuperação de áreas degradadas por catástrofes similares. As bactérias capazes de sobreviver em áreas saturadas pelo petróleo, são justamente aquelas que dele podem se alimentar degradando-o. A população microbiana com tais características, até então insignificante na região, aumentou de forma impressionante e a degradação do óleo começou a se dar muito mais rápidamente do que os especialistas haviam previsto. Os técnicos iniciaram, então, um processo de identificação, seleção, reprodução e disseminação de bactérias nas áreas atingidas da costa e, em um processo fulminante, que não durou mais de algumas semanas, eliminou-se o óleo das rochas do entorno da área atingida.

Na nossa fossa doméstica, a situação é mais ou menos similar. Se permitirmos às bactérias trabalharem sem os incômodos de bactericidas e desinfetantes, num processo de seleção natural, elas sobreviverão e, aquelas capazes de se alimentar e degradar as nossas cargas orgânicas, vão reproduzir-se de forma a garantir um tratamento constante do nosso esgoto.

Mudando os nossos hábitos

As medidas de mudança no nosso comportamento, a serem tomadas na higienização doméstica, para evitar os transbordamentos, são simples e não exigem grandes investimentos ou um conhecimento profundo do problema. É importante, no entanto, disciplinar-nos e não esquecermos de treinar todos os membros da família e da nossa equipe de apoio doméstico. No fundo, a natureza agradeceria se as precauções que se seguem, fossem adotadas por todos nós e, até mesmo, por aqueles que têm acesso a um esgotamento sanitário convencional.

1. O uso de bactericidas e desinfetantes deverá ser parcimonioso. Para tanto, basta diluir os produtos nas dosagens que considerarmos convenientes e, ao invés de, simplesmente, joga-los, em quantidade, nas paredes dos vasos e das pias, nos limitaremos a borrifá-los de maneira a desinfetar as superfícies sem contaminar a água (garrafas plásticas com borrifadores são vendidas nos supermercados para passar roupa ou para umedecer folhas e flores);

2. Nos pisos, deve-se dosar o uso de desinfetantes de forma a não deixa-los escorrer pelos ralos ou ter os excessos jogados no tanque;

3. Especial atenção se deve ter no período de finalização de obras, quando os transbordamentos são freqüentes. Na maioria dos casos, eles ocorrem devido à inoculação, no sistema de esgoto, de uma imensa quantidade restos de solventes usados na pintura e de produtos de limpeza extremamente agressivos usados para apagar os sinais da obra nos pisos, louças e paredes.

4. O uso de banheiras e hidromassagens deve ser previsto, ainda na fase de projeto, no dimensionamento das fossas. Banheiras grandes e a alimentação do esgoto com grande quantidade de água de uma só vez, encontram, no fim do sistema, uma capacidade limitada de absorção, propiciando, muitas vezes, um transbordamento momentâneo;

5. A inoculação periódica de bactérias para o tratamento da fossa não dá trabalho e melhora a eficiência da sua população bacteriana. Existem, no mercado, vários produtos trata-fossa, em geral desenvolvidos para introduzir, no sistema de esgoto, bactérias marinhas de alta eficiência, em geral embalados em pequenos pacotes ou sachês, limpos, secos e inofensivos. Há versões para caixas de gordura que devem ser jogados nas pias e para fossas que devem ser atirados no vaso, em ambos os casos, seguidos de uma descarga de água.

6. O uso das bactérias vendidas no comércio deve-se dar desde o início da vida útil da fossa e, no caso de se iniciar o seu uso após um transbordamento, a limpeza com o caminhão limpa-fossa deverá precedê-lo.

Cuidar das fossas, sem dúvida, nos dá um pouco mais de trabalho do que usar esgotos convencionais. Ela nos garante, no entanto, além de uma boa e saudável convivência com os vizinhos, o imenso conforto de poder, de forma limpa e segura, evitar o convívio com muitos dos parasitas domésticos, que tanta irritação nos causam e tantos males trazem para a nossa saúde.